quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A Confraria dos Poetas do Soneto Triste


           ( Conto humorístico de Alma Welt )



               Recebo um telefonema, no mínimo curioso. Uma bela voz de homem, grave, apresentou-se como admirador dos meus poemas, sobretudo dos sonetos. Quer me conhecer pessoalmente, e diz ter uma proposta artística que pode me interessar. Recusando-se a revelar logo o assunto, e assim atingindo meu ponto fraco, faz-me logo marcar para o dia seguinte uma hora para recebê-lo em meu ateliê.

                 Estimulada por esse incidente, pus-me  logo a escrever um novo ciclo de “Sonetos da Pintora”, que me foi gratificante, uma vez que ando ligeiramente deprimida pela solidão. Nessa série de sonetos, como é característica minha, narro o percurso dessa mesma solidão, comparando-a, num certo momento, com o barco vermelho perdido na tempestade marítima que surgiu inusitadamente em minha pintura:

       

             Soneto de marinha II

Porquê me vejo assim como barcaça

Em perigo de chocar-se, no seu curso,

Contra rochedos, ali, como ameaça,

Em silhueta agressiva, como um urso?


Será a minha morte aproximada

Ou mais um acidente de percurso,

De minha existência atribulada

De pura vida interna, sem recurso?


Subjetivista empedernida

Que me sei, mas com certo desgosto,

Meu próprio mundo reflete-se na vida


Ou será  justamente o oposto?

A vida atravessando meu cristal

Da alma, e “ prismando” o bem e o mal.

 

No Epílogo (último soneto do ciclo) fantasio um reencontro com Aline, revelando a mim mesma, a gravidade da minha fraqueza, e a persistência da minha saudade. Mas o leitor, espero, ficará mais uma vez com a impressão de uma  autêntica alegria recuperada por mim no final.

               No dia seguinte, à hora marcada, recebo o meu admirador, que me surpreendeu  inicialmente pelo seu aspecto. Tive a impressão de defrontar-me com um poeta romântico, saído das páginas de Goethe, embora sem a casaca e o lenço no pescoço. Sua vasta cabeleira desgrenhada, atirada para trás, o olhar febril e aquela mesma palidez dos tísicos daquele período, impressionaram-me ironicamente, fazendo-me sorrir involuntariamente.

                Alto, de gestos lentos, estendeu-me uma enorme mão branca de artista, expressiva mas dolente. Pareceu-me fria, em contraste com o seu olhar, que ardente, no entanto, me produziu um calafrio.

                 Convidado a sentar-se, lançou os olhos em torno, parecendo surpreendido por tantas telas, e foi logo dizendo, muito formal:

               “— Senhorita Alma, meu nome é Humberto, e pertenço a uma confraria de sonetistas. Sei que pode parecer estranho. As pessoas, em geral, não têm a mínima  idéia de que isso exista. Mas isso é devido à nossa intenção de preservar a exclusividade e a qualidade da produção dos nossos confrades. Não somos uma simples associação, mas um grupo de poetas que, dedicados ao soneto, preocupamo-nos em escondermo-nos e não, ao contrário, mostrarmo-nos ou promovermo-nos. Além disso, desde que alcancei, a dez anos, a gestão da atual diretoria, tomei a iniciativa de privilegiar a mais nobre vertente deste gênero, a meu ver: o soneto triste.  Em Portugal, terra privilegiada do soneto, essa é a categoria mais apreciada, para além da alma nostálgica dos fados da Mouraria. Trata-se, mesmo, da nobreza intrínseca da melancolia romântica, que no soneto encontra o ápice do seu lirismo. Trouxe-lhe esta antologia editada em Portugal, como presente, que espero sinceramente, seja para você, se possível, aliciante.”

                     Estendeu-me um pequeno volume, cujo título, na capa, me causou um certo impacto: “ Os mais tristes sonetos de Portugal.”

                      O Sr. Humberto continuou:

                     “—Estou organizando a antologia deste ano, da nossa própria confraria, e garanto-lhe que a tristeza dos sonetistas brasileiros nada fica a dever à dos nossos companheiros de além-mar.”

                         Tive vontade de rir, e creio mesmo que esbocei um rápido sorriso, involuntário. Mas contive-me para não desrespeitar tanta venerável tristeza. Respondi:

                      — Humberto, (posso tratá-lo assim?) estou curiosa sobre o que você espera de mim, nesse terreno. Você sabe, considero-me uma pessoa alegre. Elegi a profundidade da alegria, ainda em minha infância, quando meu pai recitou, um dia, a canção de Zaratustra, que direcionou a minha vida de artista. Você deve conhecer: “Alegria, alegria, de um sono profundo acordei...”   

                        Humberto sorriu ( tristemente) e ergueu a mão como para calar-me. Disse:

              — “Senhorita Alma, eu sei... Percebe-se isso na sua poesia, que admiro muito. No entanto devo  lhe dizer que encontro o verdadeiro filão de ouro, nela, nos poucos versos de depressão que ocorrem nos seus ciclos de sonetos, nos momentos de perda amorosa, onde a senhorita, como poeta, tem a rara capacidade de arrastar-nos consigo na sua descida, ao reino de Hades, das sombras de sua dor. É quando a senhorita atinge a excelência da sua capacidade lírica.”

                Fitei por um longo momento os olhos do meu interlocutor, que de certo modo me fazia ver um aspecto da minha poesia que eu não privilegiava pois a sua dor me afligia, fazendo-me lutar para superá-lo como indesejável, vindo justamente do meu coração português, herdado dos meus antepassados açorianos, por parte de mãe.

                Humberto, a seguir tirou um livrinho do bolso de seu paletó, que era o seu primeiro livro de sonetos absolutamente tristes, conforme me informou. Eu confesso que não sabia se devia abri-lo imediatamente, em sua frente. Me parecia uma espécie de despudor, ou no mínimo de intromissão de minha parte. Era uma situação grotesca, me pareceu.

                 Então meu visitante pediu-me para ler para ele o primeiro ciclo de Sonetos da Alma, aquele em que conto minha relação com Aline e sua perda.. Queria ouvir os sonetos de dor, o retorno à minha casa no Sul, que ele reputava sublimes. Recusei-me, aquilo me revoltava. Eu jamais leria esses sonetos para alguém:

               

Ai, quero morrer da  dor que me consome

Abandonada, estou, abandonada.

Mulher antiga, frágil, desvairada,

Nem me envergonho mais, não tenho nome.


Esta Alma aqui, pintora e poeta

Ou poetisa (que coisa mais pateta)

Perdida de paixão e consumida

Pela perda mortal da minha amiga.


Abandonada, sim, quero morrer,

Quero voltar ao sul, quero encolher

E colocar-me pequenina no meu leito


No quarto antigo da mansão paterna

Enquanto minha alma hiberna

Ao minuano que sopra no meu peito.


                 Minha prerrogativa ao escrever assim, tão confessionalmente, era justamente não olhar para os meus confessores, os leitores: mantê-los invisíveis, ou quase abstratos para mim. Enfim, confessar-me, na verdade, a mim mesma.

                Diante da minha recusa, Humberto desculpou-se, aceitou um café que lhe ofereci e preparando-se para retirar-se, reiterou o convite para juntar-me à sua confraria, entregando-me seu cartão,com o seu e.mail e o site dessa espécie de Clube da Desolação. Por minha vez, agradecendo sua amabilidade, ofereci-lhe alguns dos meus livrinhos de poemas, em especial os de sonetos, editados pelo meu amigo pintor, pelas suas “ Edições do Pavão Misterioso”.

                  Acompanhei Humberto até a porta, apertando-lhe a mão. Quando partiu, voltei-me para dentro com um longo suspiro, logo seguido de uma gargalhada.

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                 Desde a visita de Humberto, passou-se uma semana, quando afinal recebo um telefone seu, convidando-me para conhecer a sede da confraria, onde se dará uma espécie de cerimônia, ou ritual dos confrades, que ele gostaria que eu presenciasse, na esperança da minha decisão de participar desse clube dos tristes...

                 Diante de sua insistência, combino com ele vir buscar-me nesse dia às tantas horas.

                 Ao soar o interfone, desço vestida como para uma cerimônia solene. Sinto-me um pouco ridícula, por esmerar-me tanto no traje, como se fosse exibir-me num suposto templo do espírito, embora misterioso e envolto em brumas de melancolia, como eu imaginava. Mas Humberto parecia não reparar no meu aspecto físico( na minha beleza, para ser sincera). Era um homem muito sério. Um poeta totalmente voltado para a poesia, conforme acabou declarando. O que queria dizer isso? Perguntei-me. Eu sempre pensara na poesia como expressão de minha própria vida, dos meus desejos, devaneios e... dos meus amores. É claro que eu sabia que expressava também meus pensamentos, duradouros, junto com os fugazes...embora igualmente revelasse meu culto à beleza e à Arte, que me mobilizava desde a infância.

                 Com esses pensamentos não  reparei no trajeto, e logo chegamos a uma mansão no bairro de Higienópolis.  A palavra Higiene no nome do bairro me fez imediatamente lembrar da expressão “higiene mental” tão usada pela minha mãe, coisa que me irritava pela sua impertinência nos momentos de minhas introspeções, que ela tachava de “melancolia mórbida”, prenunciadora da artista que ela temia que se desenvolvesse em mim.

                  Entramos com o carro por uma alameda de cascalho, ladeada de grandes árvores e palmeiras, até a entrada pomposa do palacete que me pareceu soturno.

                  Alguns degraus e grandes colunas na fachada denunciavam o estilo senhorial da família que outrora habitou esta casa. Ao entrarmos na grande sala penumbrosa e fria, reparei antes no assoalho maravilhoso, encerado como um espelho. Percebi que a penumbra vinha do passado desta casa, isto é, da necessidade de nublar o espelho do assoalho, perigoso sob a saia das senhoritas e senhoras de então ( esta idéia improvável me fez sorrir ).

                 Humberto nos fez atravessar o salão, e enveredarmos por corredores, portas e mais portas, entalhadas, escuras, sinistras, até atingirmos um novo imenso salão, insuspeitado, onde já estavam reunidos os membros da confraria.

                  Lancei os olhos em torno, literalmente girando todo o corpo no meio do salão, o que produziu poucos sorrisos no meio daquelas fisionomias tristes. Os olhares de todos os presentes estavam sobre mim, que abanei a mão canhestramente, dando um “oi” geral. Como resposta ouvi um alto e uníssono “BEMVINDA, COMPANHEIRA POETA!!!”, que me fez quase dar uma gargalhada.

                   Convidada a sentar-me, apontaram-me uma cadeira de espaldar alto, antiga, entalhada, como todas as que ali estavam. A solenidade ia começar. 

                  Após uma breve preleção sobre os valores sagrados da tradição poética do soneto, e a enumeração dos seus estilos e métricas, como o dodecassílabo alexandrino, o soneto italiano, o inglês( em particular o shakeaspeariano ) e um belo ensaio sobre o soneto português a partir de Camões, sua superioridade e sua tradição de tristeza e nostalgia insuperáveis (eu estava perplexa!...)

                    O orador, um senhor idoso, franzino, de grande testa e olhar ainda brilhante de entusiasmo, terminou lindamente com um soneto do poeta português Guilherme de Faria, segundo informou o nosso palestrante, nascido em Guimarães, em 1907 e falecido em Lisboa, em 1929, e incrível homônimo do meu amigo e editor em cordel, o pintor e poeta de São Paulo, o que me surpreendeu tremendamente. Fiquei louca de vontade de contar logo a ele esse episódio. Eis o soneto lido pelo velhinho:


Êxtase


(A Uma Mulher)


Eis-me longe, a sonhar, a alma suspensa

E alvoroçado o coração, cativo

Do amor, do sonho que pressinto e vivo

Ao ver a tua formosura imensa


Que o desalento, as mágoas, a descrença

Que sinto n’alma, a um teu olhar furtivo,

Tudo se esvai, no sonho redivivo,

E em viva luz de esperança se condensa.


Cheia da tua graça, a minha vida,

Por milagre d’amor e alta quimera,

É a terra abençoada e prometida!


E assim, nesta ilusão, ah, quem me dera

A alma, na morte, livre e redimida,

Se não é eterna a tua Primavera!


               Fiquei até mesmo um pouco comovida, não sei bem porquê, já que o soneto, ao mesmo tempo, me soou comum, e um tanto acadêmico. O fato é que o senti como se dirigido à minha pessoa noutro tempo, noutro lugar. Creio mesmo que derramei uma lágrima.

                Em seguida, os membros, um por um, apresentaram o último soneto de suas lavras, de uma tristeza avassaladora. As lágrimas dos presentes corriam, ouvindo-se até alguns soluços e gemidos. A cada final ou chave de ouro, ouviam-se aplausos e comentários, até mesmo algumas saudações em voz alta de uns para os outros. Eu estava deliciada, mas ao mesmo sem saber se ria ou se chorava. A verdade é que alguns sonetos realmente me pegaram, e eu me senti, por momentos, gratificada com aquela experiência. Porquê, então, ainda havia em mim uma certa resistência crítica? Eu temia que me convidassem a declamar um soneto meu. Soube depois que isso não poderia acontecer nesta confraria. Antes eu teria que afiliar-me e passar por um inusitado ritual, que não revelarei jamais.

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                    Sintomaticamente, dediquei-me nos dias seguintes, com afinco, à minha pintura. Mas tarde da noite, no terceiro dia, lá estava eu a escrever poesia, embora evitando a tentação do soneto. Aquilo me parecia uma atividade um tanto anacrônica, a mim que descobrira a plena abstração na pintura, o que me dava imensa liberdade de expressão, livre das amarras da figuração, do assunto... ou da anedota, como dizia o velho e grande Volpi.

                      Mas a verdade é que a minha alma lírica clamava pelo soneto clássico, cuja métrica e rima funcionavam como um desafio e cuja disciplina era a mesma da Música, que exige suas regras de cadência, contraponto e harmonia, além do dom milagroso da melodia.

                      Humberto telefonava-me praticamente dia sim, dia não. Acostumei-me com a sua solenidade, e aprendi a apreciar a sua ingênua falta de senso de humor, compensada por um coração puro e um idealismo admirável, embora tão demodé

                       Seu cavalheirismo encantava-me, já que encontrava ressonâncias antigas na minha alma, não fosse eu como pintora e poeta, um tanto idealista também, num mundo de massas, que conspira continuamente contra toda arte solitária ou elitista. 

                        Começou a trazer-me flores, o que decididamente me enternecia e cooptava.

                       Então um dia, conseguiu arrastar-me para a Confraria onde ingressei, num ritual secreto, e com a leitura dos meu ciclo de “Sonetos Metafísicos”, que, não sendo propriamente tristes, entretanto poupavam-me da exposição do aspecto confessional e até mesmo erótico dos meus outros ciclos:

     

Volto ao pomar da minha infância

Lembrada qual se fosse a Grande Era,

Comovida com os ecos à distância

Que a própria memória reverbera.


Caminho ao redor da macieira

Como outrora, com a mesma sensação

De ouvir mais claro o sopro e o coração,

Junto às raízes em que estou inteira


E confiro junto ao tronco e suas folhas,

Do meu destino o preço e a missão,

Pedindo só ao Tempo: “Não me tolhas,”


“ Me deixa completar a minha sina

Seguindo do meu ser a inclinação

Como a semente ao fruto se destina!”


                 Fui moderadamente aplaudida, já que faltava o elemento de tristeza pungente, caro àquela confraria. Mas eu estava sendo envolvida pelo puro encadeamento de circunstâncias, e deixei-me levar pelo fluxo dos acontecimentos, conforme prescreve a doutrina que me é cara: o Tao chinês.

                  Foi então que, nesse processo de assistir às lacrimosas sessões da confraria, ouvindo sonetos às vezes torturantes, outras sublimes, começaram a acontecer aquelas mortes.

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                   Humberto telefona-me, tarde da noite, angustiado, para comunicar-me o duplo suicídio de dois membros da confraria, que foram encontrados no sótão da mansão, enforcados em duas vigas do telhado, frente a frente, de maneira insólita. A polícia, disse ele, nunca vira um suicídio assim. Tanto mais que o esperado bilhete, ou bilhetes, eram dois sonetos respectivamente achados sob seus pés. Aquilo era no mínimo irregular, afirmou o delegado, indignado. Que malucos se dão ao trabalho de redigir um soneto antes de se matar?.  E ainda por cima dodecassílabos! Tive um inoportuno acesso de riso, ao telefone, que disfarcei com dificuldade em soluços e pranto.

                     No dia seguinte, bem cedo, dirigi-me à Mansão dos poetas, para uma cerimônia fúnebre e o velório no salão principal.

                     Espantei-me de ver que os membros da confraria usavam capas pretas, debruadas, de estilo oitocentista, e chapéus cocos negros.         

                     Eu estava vestida de preto também, claro, e congratulei-me de estar com meu chapéu preto de renda sobre os olhos, remanescente do luto de minha  remota viuvez.

                     Percebi que os olhos de muitos dos membros da confraria me seguiam, atentos aos menores movimentos e atitudes, mas logo atribui isso a uma impressão subjetiva, fruto do meu auto-reconhecido narcisismo. Surpreendi-me também com a ausência de discursos e sonetos ali naquele velório inaudito.

                     Mais tarde, no enterro, eles não faltariam. Até eu fui chamada junto ao túmulo para recitar o mais obscuro soneto de minha lavra, que pude desenterrar de minha memória:


O amor é a origem do calor

Que em tudo põe sua nota de vigor

E aquilo que  acaso esteja frio

No universo pertence ao seu vazio.


Mas justamente isso é que me intriga

O imenso Mistério que restara

De Deus que ao criar a chama clara

Também criou sua inimiga


A luz e a escuridão, porquê a segunda?

Vazio d’alma, o frio coração

Porquê, meu Deus, a dor tão funda


O bem, o amor, a luz e sua benção

Não se reflete no vazio sideral

Dessa lacuna então preenchida pelo mal?

 

                Pareceu-me que para alguns presentes, o meu soneto não caiu bem, causando estranheza. Esperavam um tom discursivo e panegírico, laudatório, de caráter fúnebre, talvez? Jamais saberei. Eu não pertencia, certamente, a esse ninho estranho, de pássaros agourentos, essa é a que é a verdade.

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              Procuro as cores claras e a alegria  em minha pintura. Procuro? Não, não é bem assim: elas saem de mim, pois não rejeito o negro, o azul da Prússia, e o ultramar em grandes telas quando a alma em mim os exige.

               Tenho pensado no estranho duplo suicídio, atribuindo o gesto extremo à morbidez que deve ter assolado o espírito daqueles dois poetas.

               Humberto continua a me telefonar, cobrando-me sonetos para a nova antologia anual que está preparando. Insiste em que devo me concentrar na poesia, que considera o Poeta, enquanto ser, o mais elevado ponto da condição humana, muito além ou acima, do pintor e mesmo do músico, o que suspeito seja um tanto esprit de corps, isto é, corporativo, e por isso o suicídio, segundo ele, é tão comum entre nós (assim se expressou).

                 Não consigo discordar, embora essas classificações me causem um certo mal estar. Porquê será que tantos poetas se suicidaram ao longo da história? Confesso que um arrepio de medo me tomou por um segundo. Tenho-o dentro de mim? Meu suicídio? Tratei de afastar esses pensamentos.

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                 O telefone toca, e é Humberto angustiado, pedindo para ver-me com urgência. Implora-me que o receba em minutos. Na verdade está já debaixo do prédio, com seu celular. Peço-lhe que suba, embora esteja de peignoir.

                  Humberto chega esbaforido, mas percebo-lhe um relance de olhar avaliativo sobre toda a minha pessoa, fazendo-me  cobrir-me um pouco mais com os braços, e o decote com as mãos.

                  O poeta começa a contar a novidade funesta desta manhã : mais um suicídio na irmandade.

                  Pede-me encarecidamente que me vista rápido e que o acompanhe até a mansão.

                  Diante de tal urgência, deixo-o na sala e vou por um tailleur escuro discretíssimo, sapatos de saltos baixos e passo pela sala torcendo um rabo de cavalo com uma das mãos, manobra que este observador atento ainda deu-se o luxo de prestar atenção, eu percebi.

                  Descemos rapidamente e entramos no seu carro, tocando aflitamente para a sede.

                  Em pouco tempo estávamos num dos banheiros da mansão, diante de um corpo exangue, sentado numa poltrona, com um braço caído dentro da banheira cheia de água quente avermelhada, quase até a borda. Este poeta, percebia-se, era bastante meticuloso. Talvez só compusesse sonetos alexandrinos perfeitos, e com a chave de ouro. O bilhete, digo, soneto, acabado, sem uma manchinha de sangue, estava perfeitamente pousado na borda da banheira. Arre! Eu estava ficando farta.

                    Mas antes de assim pensar, desmaiei.

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                    Acordei com Humberto dando-me tapinhas no rosto.

                    Assim que pude coordenar os pensamentos, protestei veementemente contra sua conduta. Como pôde ele me trazer ali, antes de chamar a polícia? Isso era, no mínimo irregular. Irracional mesmo, aparentemente. Que queria ele? Assustar-me? Apresentar-me a verdadeira face da Morte? Tive vontade de bater-lhe.

                     Perguntei-lhe o que pretendia fazer com o corpo, e porquê me chamara para ver isso. Não percebia o quanto aquilo era comprometedor? O que diríamos à polícia? Humberto parecia desnorteado. Disse que, na verdade, sentira-se compelido a compartilhar esta visão estarrecedora comigo, não sabia bem por quê.

                      Eu só queria sair dali o mais rapidamente possível. Somente ter tido aquela visão funérea e real, já me fazia sentir comprometida. Corri para o carro e vomitei no banco de trás. Humberto demorou alguns segundos para chegar, suspirar, sentar-se à direção e partirmos.

                               

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                     Começo a suspeitar de Humberto, depois deste terceiro suicídio. Recuso-me a ir ao velório. Tenho vergonha deste defunto, por ter devassado a sua intimidade, embora tenha sido forçada a isso.

                      Como não poderia deixar de ser, logo recebo uma intimação da polícia para depor. Assustada, telefono para o Humberto, que se presta a me acompanhar à delegacia. Recuso. Não quero a sua companhia que acho comprometedora. Prefiro chamar um advogado.

                       Toquei a campainha do meu vizinho, jovem advogado engomadinho que me cumprimenta formalmente, estranhamente enrubecido, toda vez que me encontra no elevador. Ele abre a porta surpreso e encabulado, e assim que ouve meu resumo e pedido, presta-se logo a me acompanhar à delegacia.

                        Diante do delegado, começo uma explicação surrealista, que só não o põe perplexo porque na verdade esses policiais nada revelam (por experiência  profissional) em seus rostos impassíveis. Meu vizinho advogado está ali somente para infundir respeito, o que é insuficiente, pois a delegacia está cheia de prostitutas detidas que me perguntaram alto, à entrada, provocativamente, o preço do meu “michê”.

                   Depois de ouvir-me atentamente, o delegado liberou-me pegando apenas o meu  endereço, embora o meu vizinho tenha adiantado o seu cartão, com o telefone do seu escritório. Tudo isso, vindo da polícia, me parecia suspeito, e eu com a minha imaginação disparada, já me via indiciada, encarcerada numa cela cheia de “mulheres da vida” que me devoravam como sanhaços. Eu estava ficando nervosa. Temia ficar histérica.

                    Voltei ao meu estúdio, rememorando as perguntas do delegado, e percebendo melhor sua tendenciosidade, e os sinais de sua suspeita. Como soubera ele da minha presença naquele banheiro, antes da chegada da polícia? Não importava. A evidência de suicídio era mais que suficiente, embora o seu caráter agora serial, pusesse uma nota suspeita em tudo, a começar pela instituição, respingando também na existência já suficientemente anômala dos Poetas Tristes, numa sociedade como a nossa, votada à auto-satisfação prazerosa.

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             Humberto veio encontrar-me no estúdio, sem a minha permissão. Abri-lhe a porta e ele avançou para mim e me abraçou, beijando-me apaixonadamente os lábios. Em seguida ergueu-me com facilidade em seus braços, carregando-me no colo para o quarto como se já conhecesse profundamente os terrenos: minha carne, meu quarto e meu leito. Jogou-me sobre a cama e abriu-me a blusa com habilidade, puxou-me a saia, a seguir a calcinha, e praticamente estuprou-me, pois não houve prolegômenos, carícias, melhor dizendo.

                O tom erótico começou, na verdade, após o seu orgasmo quase brutal. Vendo-me largada, passiva, um tanto triste, pôs-se a manipular meus mamilos, e em seguida meu clitóris, introduzindo então seu dedos na minha vagina inundada, fazendo uns barulhinhos obcenos, não para se redimir, mas com uma nota perversa, eu percebi. Eu permanecia imóvel, com o rosto voltado, onde as lágrimas não corriam. Eu me entregava a uma humilhação voluptuosa, que na verdade não me era desconhecida.

                O timbre masoquista da minha sexualidade, pelo seu lado emocional e moral, é que sempre me surpreendeu. 

Guardei-me tanto tempo, até demais,

Pra quem tanto amou desde pequena,

Para então ser invadida, em tantos ais,

Nos nós de uma serpente que envenena


Mas cuja peçonha atenuei

No amor, e a duras penas conservei

O sonho, enquanto o corpo devassado

Deixei ser assim experimentado.


Vocês que lêem os meus contos

E poemas, já sabem de que falo

Eu falo tanto assim, marcando pontos


Pois quando me quero compensar

Entrego o coração e o pelo ralo

Da guria que fui, no meu pomar... 


             Humberto deixou-me ali largada, confuso diante da minha passividade. Retirou-se rapidamente do apartamento, para meia hora depois telefonar pedindo-me desculpas.

             Respondi-lhe que não se preocupasse, que tudo isso era agora irrelevante diante do problema que tínhamos nas mãos: os indícios evidentes de um suicídio serial, entre os poetas da Confraria, da qual eu fazia parte, sem querer.

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                Permaneci num estado sonhador e triste por alguns dias. Humberto conseguira me cooptar para a melancolia, com facilidade previsível no meu caso.  Lembrava-me dos meus próprios passados versos de depressão, e mais chorava:

Vento frio, minuano, inverno desta alma...

Andando pelas sendas do jardim paterno

Da cidade natal, da terra que me acalma

E deixa a dor mais triste que o inverno 


Buscando a macieira, caminho no pomar:

Tão velha e sábia, testemunha cega

Do meu lento crescer, do meu desabrochar

Com os rubros pomos que a razão me nega,


Aqui sob esta árvore assim primordial

Procuro a minha paz dentro do peito

Enregelado, mudo, lento e invernal.


Sopra o minuano ainda no meu leito

Onde o meu amor transido neva

Sobre a alma, que o vento quase leva. 


                Humberto telefonava-me todos dias, desesperado de paixão. Pedia-me perdão, justificava-se, dizendo que perdera a cabeça de tanto amor e desejo. Dizia que se eu não o recebesse, ele seria o próximo. Assustada diante dessa chantagem, consenti em recebê-lo.

                Tomei a precaução de estar vestida com o meu jeans mais grosso e justo, verdadeiro cinto de castidade, impossível de ser tirado, aberto ou rasgado. Na verdade, eu sabia que me prevenia contra mim mesma, meu forte desejo.

                 Humberto estava ajoelhado diante de mim, como um cavaleiro antigo, e pedia perdão, protestando amor eterno, de maneira um tanto arcaica, que me fez sorrir. Fi-lo levantar-se pelo queixo, explodindo em gargalhada. Logo estávamos girando abraçados no meio do ateliê, com meus pés no ar.

                 Em seguida sentamo-nos para conversar. Mal começáramos a conferir os nossos sentimentos e o telefone tocou. Atendi, ansiosamente, e como esperava, ouço a notícia pela voz do delegado: novos suicídios na Mansão. Agora triplo. Deixei cair o fone, paralisada, enquanto Humberto o pegava e gritava:

   Alô! Alô! Delegado?!

   
Guardei-me tanto tempo, até demais,

Pra quem tanto amou desde pequena,

Para então ser invadida, em tantos ais,

Nos nós de uma serpente que envenena


Mas cuja peçonha atenuei

No amor, e a duras penas conservei

O sonho, enquanto o corpo devassado

Deixei ser assim experimentado.


Vocês que lêem os meus contos

E poemas, já sabem de que falo

Eu falo tanto assim, marcando pontos


Pois quando me quero compensar

Entrego o coração e o pelo ralo

Da guria que fui, no meu pomar... 


             Humberto deixou-me ali largada, confuso diante da minha passividade. Retirou-se rapidamente do apartamento, para meia hora depois telefonar pedindo-me desculpas.

             Respondi-lhe que não se preocupasse, que tudo isso era agora irrelevante diante do problema que tínhamos nas mãos: os indícios evidentes de um suicídio serial, entre os poetas da Confraria, da qual eu fazia parte, sem querer.

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                Permaneci num estado sonhador e triste por alguns dias. Humberto conseguira me cooptar para a melancolia, com facilidade previsível no meu caso.  Lembrava-me dos meus próprios passados versos de depressão, e mais chorava:

Vento frio, minuano, inverno desta alma...

Andando pelas sendas do jardim paterno

Da cidade natal, da terra que me acalma

E deixa a dor mais triste que o inverno 


Buscando a macieira, caminho no pomar:

Tão velha e sábia, testemunha cega

Do meu lento crescer, do meu desabrochar

Com os rubros pomos que a razão me nega,


Aqui sob esta árvore assim primordial

Procuro a minha paz dentro do peito

Enregelado, mudo, lento e invernal.


Sopra o minuano ainda no meu leito

Onde o meu amor transido neva

Sobre a alma, que o vento quase leva. 


                Humberto telefonava-me todos dias, desesperado de paixão. Pedia-me perdão, justificava-se, dizendo que perdera a cabeça de tanto amor e desejo. Dizia que se eu não o recebesse, ele seria o próximo. Assustada diante dessa chantagem, consenti em recebê-lo.

                Tomei a precaução de estar vestida com o meu jeans mais grosso e justo, verdadeiro cinto de castidade, impossível de ser tirado, aberto ou rasgado. Na verdade, eu sabia que me prevenia contra mim mesma, meu forte desejo.

                 Humberto estava ajoelhado diante de mim, como um cavaleiro antigo, e pedia perdão, protestando amor eterno, de maneira um tanto arcaica, que me fez sorrir. Fi-lo levantar-se pelo queixo, explodindo em gargalhada. Logo estávamos girando abraçados no meio do ateliê, com meus pés no ar.

                 Em seguida sentamo-nos para conversar. Mal começáramos a conferir os nossos sentimentos e o telefone tocou. Atendi, ansiosamente, e como esperava, ouço a notícia pela voz do delegado: novos suicídios na Mansão. Agora triplo. Deixei cair o fone, paralisada, enquanto Humberto o pegava e gritava:

   Alô! Alô! Delegado?!

   

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                     Ali estávamos nós, novamente, desta vez vendo a polícia ensacar os mortos e coloca-los no camburão do IML. Aquilo já estava se tornando rotina. Nesse andar não sobraria mais poeta algum para contar a história...da Alma, digo, da alma.

                     Eu estava cheia de atos falhos, “lapsus linguae”, e sentimento de culpa. Sobretudo isso. De onde me vinha esse sentimento? Eu sempre me sentia assim toda a vez que alguém se suicidava... Porque não o acudi? Porquê não o convenci a viver? Não conseguira persuadi-lo de que a vida é bela, de que viver vale a pena, apesar de tudo, de todo o sofrimento do “vale de lágrimas” que era a sua contraface. Alegria, alegria, dizia o outro lado, em vão...Lembrei-me da minha experiência com um artista suicida, o violinista Alex Martelli:

Apaixonada alma atormentada

Puseste o amor, num tal momento,

Acima de tua música e talento,

E isso foi, na certa,  a coisa errada.


Ah! Se me fosse acessível

E eu pudesse, a ti, só segurar-te

No fatal segundo tão terrível

Para fina corda não enforcar-te         


E pudesses retornar ou só mantê-la

No teu belo Guarnerius, violino

De toque tão cruel e muito fino


E não (ó horror!) a degolar-te

Como vi, estarrecida, ó cena aquela!

“Finale” de uma tão sinistra arte...


                O delegado Evaristo, olhava-me com olhar severo. Saberia ele que eu era culpada? Minha beleza devia ser destrutiva, eu tivera algumas provas disso no passado. Eu, que só desejava o bem e a felicidade das pessoas!

                  Soltei um fundo suspiro, mais parecido com um gemido. O delegado devorava-me com os olhos, que pareciam lembrar: “Cherchez la Femme...”

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                 Humberto continua a visitar-me todos os dias, principalmente à   noite. Os suicídios pararam em quatorze, sugestivamente, o número de versos do Soneto, não me perguntem porquê.

                 Eu me entregava ao poeta, de todas as maneiras, em todas as posições, sonetista ocidental versado no Kama-Sutra que ele era... Até que a polícia veio buscá-lo.

                 Afinal o delegado resolvera indiciá-lo por “indução serial ao suicídio”, algo que não conferi se existe no código penal. Não quero saber. Quero que levem Humberto para longe de mim.

                 Não quero mais saber de sonetos tristes. Abandono a Confraria. Quero encerrar aqui esse capítulo esdrúxulo de minha vida de pintora-poeta. Renuncio à minha própria tristeza. Incorrigível, abro novamente os braços à alegria:

Em ciranda, rodando numa pista

Nestes sonetos comando a encenação.

Sou diretora, atriz e roteirista

E compus também o tema da canção.


Cantando todos juntos de mãos dadas

Na apoteose, o estribilho e o refrão

Que louva só o amor, e as trapalhadas,

Que  cômicas e ternas elas são!...


Neste musical , ó Alma, falas

De um novo prisma, foco e criação,

Que tudo vês, até o que tu calas...


Enquanto a platéia se comove

Cai o pano, lentamente ele se move

Vindo de cima... enquanto cantas, coração!                     FIM

  

                                FIM

  10/05/2004