( Conto humorístico de Alma Welt )
Recebo um telefonema, no mínimo
curioso. Uma bela voz de homem, grave, apresentou-se como admirador dos meus
poemas, sobretudo dos sonetos. Quer me conhecer pessoalmente, e diz ter uma
proposta artística que pode me interessar. Recusando-se a revelar logo o
assunto, e assim atingindo meu ponto fraco, faz-me logo marcar para o dia
seguinte uma hora para recebê-lo em meu ateliê.
Estimulada por esse incidente, pus-me
logo a escrever um novo ciclo de “Sonetos da Pintora”, que me foi
gratificante, uma vez que ando ligeiramente deprimida pela solidão. Nessa série
de sonetos, como é característica minha, narro o percurso dessa mesma solidão,
comparando-a, num certo momento, com o barco vermelho perdido na tempestade
marítima que surgiu inusitadamente em minha pintura:
Soneto de marinha II
Porquê me vejo assim como barcaça
Em perigo de chocar-se, no seu curso,
Contra rochedos, ali, como ameaça,
Em silhueta agressiva, como um urso?
Será a minha morte
aproximada
Ou mais um acidente de percurso,
De minha existência atribulada
De pura vida interna, sem recurso?
Subjetivista empedernida
Que me sei, mas com certo desgosto,
Meu próprio mundo reflete-se na vida
Ou será justamente o oposto?
A vida atravessando meu cristal
Da alma, e “ prismando” o bem e o mal.
No Epílogo (último soneto do ciclo) fantasio um
reencontro com Aline, revelando a mim mesma, a gravidade da minha fraqueza, e a
persistência da minha saudade. Mas o leitor, espero, ficará mais uma vez com a
impressão de uma autêntica alegria
recuperada por mim no final.
No dia seguinte, à hora marcada, recebo o meu admirador, que me
surpreendeu inicialmente pelo seu
aspecto. Tive a impressão de defrontar-me com um poeta romântico, saído das
páginas de Goethe, embora sem a casaca e o lenço no pescoço. Sua vasta
cabeleira desgrenhada, atirada para trás, o olhar febril e aquela mesma palidez
dos tísicos daquele período, impressionaram-me ironicamente, fazendo-me sorrir
involuntariamente.
Alto, de gestos lentos, estendeu-me uma enorme mão branca de artista,
expressiva mas dolente. Pareceu-me fria, em contraste com o seu olhar, que
ardente, no entanto, me produziu um calafrio.
Convidado a sentar-se, lançou os olhos em torno, parecendo surpreendido
por tantas telas, e foi logo dizendo, muito formal:
“— Senhorita Alma, meu nome é Humberto, e pertenço a uma confraria de
sonetistas. Sei que pode parecer estranho. As pessoas, em geral, não têm a
mínima idéia de que isso exista. Mas
isso é devido à nossa intenção de preservar a exclusividade e a qualidade da
produção dos nossos confrades. Não somos uma simples associação, mas um grupo
de poetas que, dedicados ao soneto, preocupamo-nos em escondermo-nos e não, ao
contrário, mostrarmo-nos ou promovermo-nos. Além disso, desde que alcancei, a
dez anos, a gestão da atual diretoria, tomei a iniciativa de privilegiar a mais
nobre vertente deste gênero, a meu ver: o soneto triste. Em Portugal, terra privilegiada do soneto,
essa é a categoria mais apreciada, para além da alma nostálgica dos fados da
Mouraria. Trata-se, mesmo, da nobreza intrínseca da melancolia romântica, que
no soneto encontra o ápice do seu lirismo. Trouxe-lhe esta antologia editada em
Portugal, como presente, que espero sinceramente, seja para você, se possível,
aliciante.”
Estendeu-me um pequeno volume, cujo título, na capa, me causou um certo
impacto: “ Os mais tristes sonetos de Portugal.”
O Sr. Humberto continuou:
“—Estou organizando a antologia deste ano, da nossa própria confraria, e
garanto-lhe que a tristeza dos sonetistas brasileiros nada fica a dever à dos
nossos companheiros de além-mar.”
Tive vontade de rir, e
creio mesmo que esbocei um rápido sorriso, involuntário. Mas contive-me para
não desrespeitar tanta venerável tristeza. Respondi:
— Humberto, (posso tratá-lo assim?) estou curiosa sobre o que você
espera de mim, nesse terreno. Você sabe, considero-me uma pessoa alegre. Elegi
a profundidade da alegria, ainda em minha infância, quando meu pai recitou, um
dia, a canção de Zaratustra, que direcionou a minha vida de artista. Você deve
conhecer: “Alegria, alegria, de um sono profundo acordei...”
Humberto sorriu (
tristemente) e ergueu a mão como para calar-me. Disse:
— “Senhorita Alma, eu sei... Percebe-se isso na sua poesia, que admiro
muito. No entanto devo lhe dizer que
encontro o verdadeiro filão de ouro, nela, nos poucos versos de depressão que
ocorrem nos seus ciclos de sonetos, nos momentos de perda amorosa, onde a
senhorita, como poeta, tem a rara capacidade de arrastar-nos consigo na sua
descida, ao reino de Hades, das sombras de sua dor. É quando a senhorita atinge
a excelência da sua capacidade lírica.”
Fitei por um longo momento os olhos do meu interlocutor, que de certo
modo me fazia ver um aspecto da minha poesia que eu não privilegiava pois a sua
dor me afligia, fazendo-me lutar para superá-lo como indesejável, vindo
justamente do meu coração português, herdado dos meus antepassados açorianos,
por parte de mãe.
Humberto, a seguir tirou um livrinho do bolso de seu paletó, que era o
seu primeiro livro de sonetos absolutamente tristes, conforme me informou. Eu
confesso que não sabia se devia abri-lo imediatamente, em sua frente. Me
parecia uma espécie de despudor, ou no mínimo de intromissão de minha parte.
Era uma situação grotesca, me pareceu.
Então meu visitante pediu-me para ler para ele o primeiro ciclo de
Sonetos da Alma, aquele em que conto minha relação com Aline e sua perda..
Queria ouvir os sonetos de dor, o retorno à minha casa no Sul, que ele reputava
sublimes. Recusei-me, aquilo me revoltava. Eu jamais leria esses sonetos para
alguém:
Ai, quero morrer da dor que me consome
Abandonada, estou, abandonada.
Mulher antiga, frágil, desvairada,
Nem me envergonho mais, não tenho nome.
Esta Alma aqui, pintora e
poeta
Ou poetisa (que coisa mais pateta)
Perdida de paixão e consumida
Pela perda mortal da minha amiga.
Abandonada, sim, quero morrer,
Quero voltar ao sul, quero encolher
E colocar-me pequenina no meu leito
No quarto antigo da mansão
paterna
Enquanto minha alma hiberna
Ao minuano que sopra no meu peito.
Minha prerrogativa ao escrever assim, tão confessionalmente, era
justamente não olhar para os meus confessores, os leitores: mantê-los
invisíveis, ou quase abstratos para mim. Enfim, confessar-me, na verdade, a mim
mesma.
Diante da minha recusa, Humberto
desculpou-se, aceitou um café que lhe ofereci e preparando-se para retirar-se,
reiterou o convite para juntar-me à sua confraria, entregando-me seu cartão,com
o seu e.mail e o site dessa espécie de Clube da Desolação. Por minha vez,
agradecendo sua amabilidade, ofereci-lhe alguns dos meus livrinhos de poemas,
em especial os de sonetos, editados pelo meu amigo pintor, pelas suas “ Edições
do Pavão Misterioso”.
Acompanhei Humberto até a porta, apertando-lhe a mão. Quando partiu,
voltei-me para dentro com um longo suspiro, logo seguido de uma gargalhada.
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Desde a visita de Humberto, passou-se
uma semana, quando afinal recebo um telefone seu, convidando-me para conhecer a
sede da confraria, onde se dará uma espécie de cerimônia, ou ritual dos
confrades, que ele gostaria que eu presenciasse, na esperança da minha decisão
de participar desse clube dos tristes...
Diante de sua insistência, combino com ele vir buscar-me nesse dia às
tantas horas.
Ao soar o interfone, desço vestida como para uma cerimônia solene.
Sinto-me um pouco ridícula, por esmerar-me tanto no traje, como se fosse
exibir-me num suposto templo do espírito, embora misterioso e envolto em brumas
de melancolia, como eu imaginava. Mas Humberto parecia não reparar no meu
aspecto físico( na minha beleza, para ser sincera). Era um homem muito sério.
Um poeta totalmente voltado para a poesia, conforme acabou declarando. O que
queria dizer isso? Perguntei-me. Eu sempre pensara na poesia como expressão de
minha própria vida, dos meus desejos, devaneios e... dos meus amores. É claro
que eu sabia que expressava também meus pensamentos, duradouros, junto com os
fugazes...embora igualmente revelasse meu culto à beleza e à Arte, que me
mobilizava desde a infância.
Com esses pensamentos não reparei
no trajeto, e logo chegamos a uma mansão no bairro de Higienópolis. A palavra Higiene no nome do bairro me fez
imediatamente lembrar da expressão “higiene
mental” tão usada pela minha mãe, coisa que me irritava pela sua
impertinência nos momentos de minhas introspeções, que ela tachava de
“melancolia mórbida”, prenunciadora da artista que ela temia que se
desenvolvesse em mim.
Entramos com o carro por uma alameda de cascalho, ladeada de grandes
árvores e palmeiras, até a entrada pomposa do palacete que me pareceu soturno.
Alguns degraus e grandes colunas na fachada denunciavam o estilo
senhorial da família que outrora habitou esta casa. Ao entrarmos na grande sala
penumbrosa e fria, reparei antes no assoalho maravilhoso, encerado como um
espelho. Percebi que a penumbra vinha do passado desta casa, isto é, da
necessidade de nublar o espelho do assoalho, perigoso sob a saia das senhoritas
e senhoras de então ( esta idéia improvável me fez sorrir ).
Humberto nos fez atravessar o salão, e enveredarmos por corredores,
portas e mais portas, entalhadas, escuras, sinistras, até atingirmos um novo
imenso salão, insuspeitado, onde já estavam reunidos os membros da confraria.
Lancei os olhos em torno, literalmente girando todo o corpo no meio do
salão, o que produziu poucos sorrisos no meio daquelas fisionomias tristes. Os
olhares de todos os presentes estavam sobre mim, que abanei a mão
canhestramente, dando um “oi” geral. Como resposta ouvi um alto e uníssono
“BEMVINDA, COMPANHEIRA POETA!!!”, que me fez quase dar uma gargalhada.
Convidada a sentar-me, apontaram-me uma cadeira de espaldar alto,
antiga, entalhada, como todas as que ali estavam. A solenidade ia começar.
Após uma breve preleção sobre os
valores sagrados da tradição poética do soneto, e a enumeração dos seus estilos
e métricas, como o dodecassílabo alexandrino, o soneto italiano, o inglês( em
particular o shakeaspeariano ) e um belo ensaio sobre o soneto português a
partir de Camões, sua superioridade e sua tradição de tristeza e nostalgia
insuperáveis (eu estava perplexa!...)
O orador, um senhor idoso, franzino, de grande testa e olhar ainda
brilhante de entusiasmo, terminou lindamente com um soneto do poeta português
Guilherme de Faria, segundo informou o nosso palestrante, nascido em Guimarães,
em 1907 e falecido em Lisboa, em 1929, e incrível homônimo do meu amigo e
editor em cordel, o pintor e poeta de São Paulo, o que me surpreendeu
tremendamente. Fiquei louca de vontade de contar logo a ele esse episódio. Eis
o soneto lido pelo velhinho:
Êxtase
(A Uma Mulher)
Eis-me longe, a sonhar, a
alma suspensa
E alvoroçado o coração, cativo
Do amor, do sonho que pressinto e vivo
Ao ver a tua formosura imensa
Que o desalento, as mágoas,
a descrença
Que sinto n’alma, a um teu olhar furtivo,
Tudo se esvai, no sonho redivivo,
E em viva luz de esperança se condensa.
Cheia da tua graça, a minha vida,
Por milagre d’amor e alta quimera,
É a terra abençoada e prometida!
E assim, nesta ilusão, ah,
quem me dera
A alma, na morte, livre e redimida,
Se não é eterna a tua Primavera!
Fiquei até mesmo um pouco comovida, não sei bem porquê, já que o soneto,
ao mesmo tempo, me soou comum, e um tanto acadêmico. O fato é que o senti como
se dirigido à minha pessoa noutro tempo, noutro lugar. Creio mesmo que derramei
uma lágrima.
Em seguida, os membros, um por um, apresentaram o último soneto de suas
lavras, de uma tristeza avassaladora. As lágrimas dos presentes corriam,
ouvindo-se até alguns soluços e gemidos. A cada final ou chave de ouro,
ouviam-se aplausos e comentários, até mesmo algumas saudações em voz alta de
uns para os outros. Eu estava deliciada, mas ao mesmo sem saber se ria ou se
chorava. A verdade é que alguns sonetos realmente me pegaram, e eu me senti,
por momentos, gratificada com aquela experiência. Porquê, então, ainda havia em
mim uma certa resistência crítica? Eu temia que me convidassem a declamar um
soneto meu. Soube depois que isso não poderia acontecer nesta confraria. Antes
eu teria que afiliar-me e passar por um inusitado ritual, que não revelarei
jamais.
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Sintomaticamente, dediquei-me nos dias seguintes, com afinco, à minha
pintura. Mas tarde da noite, no terceiro dia, lá estava eu a escrever poesia,
embora evitando a tentação do soneto. Aquilo me parecia uma atividade um tanto
anacrônica, a mim que descobrira a plena abstração na pintura, o que me dava
imensa liberdade de expressão, livre das amarras da figuração, do assunto... ou
da anedota, como dizia o velho e grande Volpi.
Mas a verdade é que a minha alma
lírica clamava pelo soneto clássico, cuja métrica e rima funcionavam como um
desafio e cuja disciplina era a mesma da Música, que exige suas regras de
cadência, contraponto e harmonia, além do dom milagroso da melodia.
Humberto telefonava-me
praticamente dia sim, dia não. Acostumei-me com a sua solenidade, e aprendi a
apreciar a sua ingênua falta de senso de humor, compensada por um coração puro
e um idealismo admirável, embora tão demodé
Seu cavalheirismo encantava-me, já
que encontrava ressonâncias antigas na minha alma, não fosse eu como pintora e
poeta, um tanto idealista também, num mundo de massas, que conspira
continuamente contra toda arte solitária ou elitista.
Começou a trazer-me flores,
o que decididamente me enternecia e cooptava.
Então um dia, conseguiu
arrastar-me para a Confraria onde ingressei, num ritual secreto, e com a
leitura dos meu ciclo de “Sonetos Metafísicos”, que, não sendo propriamente
tristes, entretanto poupavam-me da exposição do aspecto confessional e até
mesmo erótico dos meus outros ciclos:
Volto ao pomar da minha
infância
Lembrada qual se fosse a Grande Era,
Comovida com os ecos à distância
Que a própria memória reverbera.
Caminho ao redor da macieira
Como outrora, com a mesma sensação
De ouvir mais claro o sopro e o coração,
Junto às raízes em que estou inteira
E confiro junto ao tronco e suas folhas,
Do meu destino o preço e a missão,
Pedindo só ao Tempo: “Não me tolhas,”
“ Me deixa completar a minha
sina
Seguindo do meu ser a inclinação
Como a semente ao fruto se destina!”
Fui moderadamente aplaudida, já que faltava o elemento de tristeza
pungente, caro àquela confraria. Mas eu estava sendo envolvida pelo puro
encadeamento de circunstâncias, e deixei-me levar pelo fluxo dos
acontecimentos, conforme prescreve a doutrina que me é cara: o Tao chinês.
Foi então que, nesse processo de assistir às lacrimosas sessões da
confraria, ouvindo sonetos às vezes torturantes, outras sublimes, começaram a
acontecer aquelas mortes.
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Humberto telefona-me, tarde da noite, angustiado, para comunicar-me o
duplo suicídio de dois membros da confraria, que foram encontrados no sótão da
mansão, enforcados em duas vigas do telhado, frente a frente, de maneira
insólita. A polícia, disse ele, nunca vira um suicídio assim. Tanto mais que o
esperado bilhete, ou bilhetes, eram dois sonetos respectivamente achados sob
seus pés. Aquilo era no mínimo irregular, afirmou o delegado, indignado. Que
malucos se dão ao trabalho de redigir um soneto antes de se matar?. E ainda por cima dodecassílabos! Tive um
inoportuno acesso de riso, ao telefone, que disfarcei com dificuldade em
soluços e pranto.
No dia seguinte, bem cedo, dirigi-me à Mansão dos poetas, para uma cerimônia
fúnebre e o velório no salão principal.
Espantei-me de ver que os membros da confraria usavam capas pretas,
debruadas, de estilo oitocentista, e chapéus cocos negros.
Eu estava vestida de preto também, claro, e congratulei-me de estar com
meu chapéu preto de renda sobre os olhos, remanescente do luto de minha remota viuvez.
Percebi que os olhos de muitos dos membros da confraria me seguiam,
atentos aos menores movimentos e atitudes, mas logo atribui isso a uma
impressão subjetiva, fruto do meu auto-reconhecido narcisismo. Surpreendi-me
também com a ausência de discursos e sonetos ali naquele velório inaudito.
Mais tarde, no enterro, eles não faltariam. Até eu fui chamada junto ao
túmulo para recitar o mais obscuro soneto de minha lavra, que pude desenterrar
de minha memória:
O amor é a origem do calor
Que em tudo põe sua nota de vigor
E aquilo que
acaso esteja frio
No universo pertence ao seu vazio.
Mas justamente isso é que me
intriga
O imenso Mistério que restara
De Deus que ao criar a chama clara
Também criou sua inimiga
A luz e a escuridão, porquê
a segunda?
Vazio d’alma, o frio coração
Porquê, meu Deus, a dor tão funda
O bem, o amor, a luz e sua
benção
Não se reflete no vazio sideral
Dessa lacuna então preenchida pelo mal?
Pareceu-me que para alguns presentes, o meu soneto não caiu bem,
causando estranheza. Esperavam um tom discursivo e panegírico, laudatório, de
caráter fúnebre, talvez? Jamais saberei. Eu não pertencia, certamente, a esse
ninho estranho, de pássaros agourentos, essa é a que é a verdade.
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Procuro as cores claras e a alegria
em minha pintura. Procuro? Não, não é bem assim: elas saem de mim, pois
não rejeito o negro, o azul da Prússia, e o ultramar em grandes telas quando a
alma em mim os exige.
Tenho pensado no estranho duplo
suicídio, atribuindo o gesto extremo à morbidez que deve ter assolado o
espírito daqueles dois poetas.
Humberto continua a me telefonar, cobrando-me sonetos para a nova
antologia anual que está preparando. Insiste em que devo me concentrar na
poesia, que considera o Poeta, enquanto ser, o mais elevado ponto da condição
humana, muito além ou acima, do pintor e mesmo do músico, o que suspeito seja
um tanto esprit de corps, isto é,
corporativo, e por isso o suicídio, segundo ele, é tão comum entre nós (assim
se expressou).
Não consigo discordar, embora essas classificações me causem um certo
mal estar. Porquê será que tantos poetas se suicidaram ao longo da história?
Confesso que um arrepio de medo me tomou por um segundo. Tenho-o dentro de mim?
Meu suicídio? Tratei de afastar esses pensamentos.
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O telefone toca, e é Humberto angustiado, pedindo para ver-me com
urgência. Implora-me que o receba em minutos. Na verdade está já debaixo do
prédio, com seu celular. Peço-lhe que suba, embora esteja de peignoir.
Humberto chega esbaforido, mas
percebo-lhe um relance de olhar avaliativo sobre toda a minha pessoa,
fazendo-me cobrir-me um pouco mais com
os braços, e o decote com as mãos.
O poeta começa a contar a novidade funesta desta manhã : mais um
suicídio na irmandade.
Pede-me encarecidamente que me vista rápido e que o acompanhe até a
mansão.
Diante de tal urgência, deixo-o na sala e vou por um tailleur escuro
discretíssimo, sapatos de saltos baixos e passo pela sala torcendo um rabo de
cavalo com uma das mãos, manobra que este observador atento ainda deu-se o luxo
de prestar atenção, eu percebi.
Descemos rapidamente e entramos no seu carro, tocando aflitamente para a
sede.
Em pouco tempo estávamos num
dos banheiros da mansão, diante de um corpo exangue, sentado numa poltrona, com
um braço caído dentro da banheira cheia de água quente avermelhada, quase até a
borda. Este poeta, percebia-se, era bastante meticuloso. Talvez só compusesse
sonetos alexandrinos perfeitos, e com a chave de ouro. O bilhete, digo, soneto,
acabado, sem uma manchinha de sangue, estava perfeitamente pousado na borda da
banheira. Arre! Eu estava ficando farta.
Mas antes de assim pensar, desmaiei.
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Acordei com Humberto dando-me tapinhas no rosto.
Assim que pude coordenar os pensamentos, protestei veementemente contra
sua conduta. Como pôde ele me trazer ali, antes de chamar a polícia? Isso era,
no mínimo irregular. Irracional mesmo, aparentemente. Que queria ele?
Assustar-me? Apresentar-me a verdadeira face da Morte? Tive vontade de
bater-lhe.
Perguntei-lhe o que pretendia fazer com o corpo, e porquê me chamara
para ver isso. Não percebia o quanto aquilo era comprometedor? O que diríamos à
polícia? Humberto parecia desnorteado. Disse que, na verdade, sentira-se
compelido a compartilhar esta visão estarrecedora comigo, não sabia bem por
quê.
Eu só queria sair dali o mais rapidamente possível. Somente ter tido
aquela visão funérea e real, já me fazia sentir comprometida. Corri para o
carro e vomitei no banco de trás. Humberto demorou alguns segundos para chegar,
suspirar, sentar-se à direção e partirmos.
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Começo a suspeitar de Humberto, depois deste terceiro suicídio.
Recuso-me a ir ao velório. Tenho vergonha deste defunto, por ter devassado a
sua intimidade, embora tenha sido forçada a isso.
Como não poderia deixar de ser, logo recebo uma intimação da polícia
para depor. Assustada, telefono para o Humberto, que se presta a me acompanhar
à delegacia. Recuso. Não quero a sua companhia que acho comprometedora. Prefiro
chamar um advogado.
Toquei a campainha do
meu vizinho, jovem advogado engomadinho que me cumprimenta formalmente,
estranhamente enrubecido, toda vez que me encontra no elevador. Ele abre a
porta surpreso e encabulado, e assim que ouve meu resumo e pedido, presta-se
logo a me acompanhar à delegacia.
Diante do delegado,
começo uma explicação surrealista, que só não o põe perplexo porque na verdade
esses policiais nada revelam (por experiência
profissional) em seus rostos impassíveis. Meu vizinho advogado está ali
somente para infundir respeito, o que é insuficiente, pois a delegacia está
cheia de prostitutas detidas que me perguntaram alto, à entrada,
provocativamente, o preço do meu “michê”.
Depois de ouvir-me atentamente, o delegado
liberou-me pegando apenas o meu
endereço, embora o meu vizinho tenha adiantado o seu cartão, com o
telefone do seu escritório. Tudo isso, vindo da polícia, me parecia suspeito, e
eu com a minha imaginação disparada, já me via indiciada, encarcerada numa cela
cheia de “mulheres da vida” que me devoravam como sanhaços. Eu estava ficando
nervosa. Temia ficar histérica.
Voltei ao meu estúdio, rememorando as perguntas do delegado, e
percebendo melhor sua tendenciosidade, e os sinais de sua suspeita. Como
soubera ele da minha presença naquele banheiro, antes da chegada da polícia?
Não importava. A evidência de suicídio era mais que suficiente, embora o seu
caráter agora serial, pusesse uma nota suspeita em tudo, a começar pela
instituição, respingando também na existência já suficientemente anômala dos
Poetas Tristes, numa sociedade como a nossa, votada à auto-satisfação
prazerosa.
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Humberto veio encontrar-me no estúdio, sem a minha permissão. Abri-lhe a
porta e ele avançou para mim e me abraçou, beijando-me apaixonadamente os
lábios. Em seguida ergueu-me com facilidade em seus braços, carregando-me no
colo para o quarto como se já conhecesse profundamente os terrenos: minha
carne, meu quarto e meu leito. Jogou-me sobre a cama e abriu-me a blusa com
habilidade, puxou-me a saia, a seguir a calcinha, e praticamente estuprou-me,
pois não houve prolegômenos, carícias, melhor dizendo.
O tom erótico começou, na verdade, após o seu orgasmo quase brutal.
Vendo-me largada, passiva, um tanto triste, pôs-se a manipular meus mamilos, e
em seguida meu clitóris, introduzindo então seu dedos na minha vagina inundada,
fazendo uns barulhinhos obcenos, não para se redimir, mas com uma nota
perversa, eu percebi. Eu permanecia imóvel, com o rosto voltado, onde as
lágrimas não corriam. Eu me entregava a uma humilhação voluptuosa, que na
verdade não me era desconhecida.
O timbre masoquista da minha sexualidade, pelo seu lado emocional e
moral, é que sempre me surpreendeu.
Guardei-me tanto tempo, até demais,
Pra quem tanto amou desde pequena,
Para então ser invadida, em tantos ais,
Nos nós de uma serpente que envenena
Mas cuja peçonha atenuei
No amor, e a duras penas conservei
O sonho, enquanto o corpo devassado
Deixei ser assim experimentado.
Vocês que lêem os meus contos
E poemas, já sabem de que falo
Eu falo tanto assim, marcando pontos
Pois quando me quero compensar
Entrego o coração e o pelo ralo
Da guria que fui, no meu pomar...
Humberto deixou-me ali largada, confuso diante da minha passividade. Retirou-se rapidamente do apartamento, para meia hora depois telefonar pedindo-me desculpas.
Respondi-lhe que não se preocupasse, que tudo isso era agora irrelevante diante do problema que tínhamos nas mãos: os indícios evidentes de um suicídio serial, entre os poetas da Confraria, da qual eu fazia parte, sem querer.
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Permaneci num estado sonhador e triste por alguns dias. Humberto conseguira me cooptar para a melancolia, com facilidade previsível no meu caso. Lembrava-me dos meus próprios passados versos de depressão, e mais chorava:
Vento frio, minuano, inverno desta alma...
Andando pelas sendas do jardim paterno
Da cidade natal, da terra que me acalma
E deixa a dor mais triste que o inverno
Buscando a macieira, caminho no pomar:
Tão velha e sábia, testemunha cega
Do meu lento crescer, do meu desabrochar
Com os rubros pomos que a razão me nega,
Aqui sob esta árvore assim primordial
Procuro a minha paz dentro do peito
Enregelado, mudo, lento e invernal.
Sopra o minuano ainda no meu leito
Onde o meu amor transido neva
Sobre a alma, que o vento quase leva.
Humberto telefonava-me todos dias, desesperado de paixão. Pedia-me perdão, justificava-se, dizendo que perdera a cabeça de tanto amor e desejo. Dizia que se eu não o recebesse, ele seria o próximo. Assustada diante dessa chantagem, consenti em recebê-lo.
Tomei a precaução de estar vestida com o meu jeans mais grosso e justo, verdadeiro cinto de castidade, impossível de ser tirado, aberto ou rasgado. Na verdade, eu sabia que me prevenia contra mim mesma, meu forte desejo.
Humberto estava ajoelhado diante de mim, como um cavaleiro antigo, e pedia perdão, protestando amor eterno, de maneira um tanto arcaica, que me fez sorrir. Fi-lo levantar-se pelo queixo, explodindo em gargalhada. Logo estávamos girando abraçados no meio do ateliê, com meus pés no ar.
Em seguida sentamo-nos para conversar. Mal começáramos a conferir os nossos sentimentos e o telefone tocou. Atendi, ansiosamente, e como esperava, ouço a notícia pela voz do delegado: novos suicídios na Mansão. Agora triplo. Deixei cair o fone, paralisada, enquanto Humberto o pegava e gritava:
— Alô! Alô! Delegado?!
Pra quem tanto amou desde pequena,
Para então ser invadida, em tantos ais,
Nos nós de uma serpente que envenena
Mas cuja peçonha atenuei
No amor, e a duras penas conservei
O sonho, enquanto o corpo devassado
Deixei ser assim experimentado.
Vocês que lêem os meus
contos
E poemas, já sabem de que falo
Eu falo tanto assim, marcando pontos
Pois quando me quero
compensar
Entrego o coração e o pelo ralo
Da guria que fui, no meu pomar...
Humberto deixou-me ali largada, confuso diante da minha passividade.
Retirou-se rapidamente do apartamento, para meia hora depois telefonar
pedindo-me desculpas.
Respondi-lhe que não se preocupasse, que tudo isso era agora irrelevante
diante do problema que tínhamos nas mãos: os indícios evidentes de um suicídio
serial, entre os poetas da Confraria, da qual eu fazia parte, sem querer.
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Permaneci num estado sonhador e triste por alguns dias. Humberto
conseguira me cooptar para a melancolia, com facilidade previsível no meu
caso. Lembrava-me dos meus próprios
passados versos de depressão, e mais chorava:
Vento frio, minuano, inverno desta alma...
Andando pelas sendas do jardim paterno
Da cidade natal, da terra que me acalma
E deixa a dor mais triste que o inverno
Buscando a macieira, caminho no pomar:
Tão velha e sábia, testemunha cega
Do meu lento crescer, do meu desabrochar
Com os rubros pomos que a razão me nega,
Aqui sob esta árvore assim primordial
Procuro a minha paz dentro do peito
Enregelado, mudo, lento e invernal.
Sopra o minuano ainda no meu
leito
Onde o meu amor transido neva
Sobre a alma, que o vento quase leva.
Humberto telefonava-me todos dias, desesperado de paixão. Pedia-me
perdão, justificava-se, dizendo que perdera a cabeça de tanto amor e desejo.
Dizia que se eu não o recebesse, ele seria o próximo. Assustada diante dessa
chantagem, consenti em recebê-lo.
Tomei a precaução de estar vestida com o meu jeans mais grosso e justo,
verdadeiro cinto de castidade, impossível de ser tirado, aberto ou rasgado. Na
verdade, eu sabia que me prevenia contra mim mesma, meu forte desejo.
Humberto estava ajoelhado diante de mim, como um cavaleiro antigo, e
pedia perdão, protestando amor eterno, de maneira um tanto arcaica, que me fez
sorrir. Fi-lo levantar-se pelo queixo, explodindo em gargalhada. Logo estávamos
girando abraçados no meio do ateliê, com meus pés no ar.
Em seguida sentamo-nos para conversar. Mal começáramos a conferir os
nossos sentimentos e o telefone tocou. Atendi, ansiosamente, e como esperava,
ouço a notícia pela voz do delegado: novos suicídios na Mansão. Agora triplo.
Deixei cair o fone, paralisada, enquanto Humberto o pegava e gritava:
—
Alô! Alô! Delegado?!
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Ali estávamos nós, novamente, desta vez vendo a polícia ensacar os
mortos e coloca-los no camburão do IML. Aquilo já estava se tornando rotina.
Nesse andar não sobraria mais poeta algum para contar a história...da Alma,
digo, da alma.
Eu estava cheia de atos falhos, “lapsus linguae”, e sentimento de culpa.
Sobretudo isso. De onde me vinha esse sentimento? Eu sempre me sentia assim
toda a vez que alguém se suicidava... Porque não o acudi? Porquê não o convenci
a viver? Não conseguira persuadi-lo de que a vida é bela, de que viver vale a
pena, apesar de tudo, de todo o sofrimento do “vale de lágrimas” que era a sua
contraface. Alegria, alegria, dizia o outro lado, em vão...Lembrei-me da minha
experiência com um artista suicida, o violinista Alex Martelli:
Apaixonada alma atormentada
Puseste o amor, num tal momento,
Acima de tua música e talento,
E isso foi, na certa, a coisa errada.
Ah! Se me fosse acessível
E eu pudesse, a ti, só segurar-te
No fatal segundo tão terrível
Para fina corda não enforcar-te
E pudesses retornar ou só
mantê-la
No teu belo Guarnerius, violino
De toque tão cruel e muito fino
E não (ó horror!) a
degolar-te
Como vi, estarrecida, ó cena aquela!
“Finale” de uma tão sinistra arte...
O delegado Evaristo, olhava-me com olhar severo. Saberia ele que eu era
culpada? Minha beleza devia ser destrutiva, eu tivera algumas provas disso no
passado. Eu, que só desejava o bem e a felicidade das pessoas!
Soltei um fundo suspiro, mais parecido com um gemido. O delegado
devorava-me com os olhos, que pareciam lembrar: “Cherchez la Femme...”
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Humberto continua a visitar-me todos os dias, principalmente à noite. Os suicídios pararam em quatorze,
sugestivamente, o número de versos do Soneto, não me perguntem porquê.
Eu me entregava ao poeta, de todas as maneiras, em todas as posições,
sonetista ocidental versado no Kama-Sutra que ele era... Até que a polícia veio
buscá-lo.
Afinal o delegado resolvera indiciá-lo por “indução serial ao suicídio”,
algo que não conferi se existe no código penal. Não quero saber. Quero que
levem Humberto para longe de mim.
Não quero mais saber de sonetos tristes. Abandono a Confraria. Quero
encerrar aqui esse capítulo esdrúxulo de minha vida de pintora-poeta. Renuncio
à minha própria tristeza. Incorrigível, abro novamente os braços à alegria:
Em ciranda, rodando numa pista
Nestes sonetos comando a encenação.
Sou diretora, atriz e roteirista
E compus também o tema da canção.
Cantando todos juntos de
mãos dadas
Na apoteose, o estribilho e o refrão
Que louva só o amor, e as trapalhadas,
Que cômicas e
ternas elas são!...
Neste musical , ó Alma,
falas
De um novo prisma, foco e criação,
Que tudo vês, até o que tu calas...
Enquanto a platéia se comove
Cai o pano, lentamente ele se move
Vindo de cima... enquanto cantas, coração! FIM
FIM
10/05/2004